Notícias do Tocantins – O jatobá, fruto típico do Cerrado e presente em diversos biomas brasileiros, é valorizado por seu alto valor nutricional, suas propriedades medicinais e pela importância ecológica que representa para os ecossistemas. Sua polpa, rica em nutrientes, é amplamente utilizada na culinária e na medicina popular, contribuindo tanto para a saúde das pessoas quanto para o fortalecimento da bioeconomia e da renda de comunidades agroextrativistas.
No Tocantins, onde o fruto é abundante, o aproveitamento do jatobá tem se tornado símbolo de valorização do Cerrado em pé.
Conhecimento tradicional e manejo sustentável
José Batista, conhecido como Zé Meninim, é referência no manejo do jatobá há mais de duas décadas na APA Jalapão. O especialista se envolveu na atividade com o apoio da Associação Onça D’Água, membro da Coalizão Vozes do Tocantins por Justiça Climática. Ele explica que a coleta precisa ocorrer antes do período de chuvas, para evitar que a polpa absorva umidade e perca qualidade para a produção da farinha do Jatobá.
“Não pode tomar chuva no mato, porque com a umidade da terra a polpa incha e não vira mais farinha. É preciso armazenar em um lugar bem arejado e sem umidade”, detalha Zé Meninim. “Outro cuidado é verificar a qualidade do fruto: se a maioria estiver boa, colhemos; caso contrário, deixamos o pé descansar”, completa.
Da coleta à farinha
O processo de produção da farinha de jatobá envolve etapas que unem técnica, tradição e coletividade. Após a coleta e o armazenamento corretos, o fruto é quebrado manualmente, e as polpas boas são separadas. Em seguida, passam por despolpadeiras adaptadas ou pelo pilão, até liberar a farinha.
O produto é então peneirado duas vezes e torrado em temperatura controlada, resultando em uma farinha fina, aromática e nutritiva — base para pães, bolos, biscoitos e vitaminas. Essa produção coletiva, conhecida como “farinhada”, é marcada pelo cuidado com a higiene, o ponto da torra e o trabalho comunitário.
Farinhada do Cantão: tradição e resistência
Há três anos, a Associação Onça D’Água acompanha a produção de farinha de jatobá na APA Ilha do Bananal/Cantão, em parceria com Zé Meninim e com o apoio da Associação dos Agricultores Familiares e Agroindustriais de Palmas (AGROP).
A edição mais recente, realizada em outubro, reuniu comunidades agroextrativistas e técnicos da região, resultando em um produto de alta qualidade, fruto da combinação entre saberes tradicionais e boas práticas de segurança alimentar.
Protagonismo feminino e preservação do Cerrado
A Farinhada do Jatobá é marcada pelo protagonismo das mulheres agroextrativistas. No assentamento Onalício Barros, em Caseara, a atividade se transformou em um espaço de partilha e reafirmação da identidade camponesa.
“É um evento que vai além da produção de farinha. É um momento de fortalecer a nossa cultura e a resistência das famílias que vivem do Cerrado”, afirma Ana Lúcia, liderança comunitária e integrante da Associação Antônio Francisco Brasil (AAFB).
Segundo ela, o fruto utilizado é coletado nas áreas protegidas da região, com apoio técnico da APA Ilha do Bananal/Cantão. A prática representa uma forma de resistência à expansão dos latifúndios e da monocultura, reafirmando o compromisso das comunidades com a preservação ambiental.
Em 2025, o evento reuniu mais de 100 participantes, entre assentados, acampados, agricultores familiares, indígenas, técnicos e integrantes do MST, fortalecendo os modos de vida tradicionais e a economia solidária.
Rede de apoio e fortalecimento comunitário
A Farinhada do Jatobá integra as ações da Coalizão Vozes do Tocantins por Justiça Climática, rede comprometida com a defesa do Cerrado e a promoção de uma bioeconomia comunitária. O evento é realizado pela Associação de Mulheres Agroextrativistas da APA Ilha do Bananal/Cantão (AMA Cantão) e pelo Projeto Bem Viver, com parceria da AAFB, APA Ilha do Bananal/Cantão e Parque Estadual do Cantão (PEC).
O projeto conta ainda com apoio do WRI Brasil, Fundo Casa Socioambiental, ISPN e Fundo Ecos, e é cofinanciado pela União Europeia e pelo Global Gateway.

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