A aprovação do regime de urgência para o projeto que cria a chamada “bancada cristã” na Câmara dos Deputados, com 398 votos favoráveis e apenas 30 contrários, reacende uma discussão fundamental: onde termina a fé e começa o Estado?
A proposta, apresentada pelos deputados Gilberto Nascimento (PSD-SP) e Luiz Gastão (PSD-CE), prevê que a bancada cristã tenha direito de voz e voto nas reuniões de líderes partidários, o que lhe concederia o mesmo peso político de um partido formalmente constituído. Segundo seus autores, a ideia seria garantir que os “valores cristãos” tenham espaço institucional no Parlamento. Mas o argumento esbarra em um princípio basilar da democracia: o Estado laico, previsto na Constituição Federal.
O Brasil é um país de maioria cristã, mas também de pluralidade religiosa, e isso significa que nenhuma crença pode ter privilégios institucionais. Como questionou o deputado e pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), líder da Frente Parlamentar em Defesa do Estado Laico: “Vai haver também uma bancada do Islã, do Judaísmo, do Candomblé ou da Umbanda? Se não, por que a exclusividade cristã num Estado que deve representar todos?”.
A comparação é pertinente. Assim como existem bancadas que defendem causas sociais, como a bancada feminina e a bancada negra, formadas para garantir direitos historicamente negados, a criação de uma bancada religiosa parte de uma base inversa: a do poder já hegemônico. O cristianismo, longe de ser um grupo oprimido, moldou as instituições brasileiras desde a colonização e ainda exerce ampla influência na cultura, na educação e na política.
Dar a esse grupo uma representação formal dentro do Congresso, com tempo de liderança e voto nas decisões de pauta, é institucionalizar um privilégio. Como lembrou o deputado Reimont (PT-RJ), ex-padre franciscano, “o Congresso não pode privilegiar uma fé em detrimento de outras, sob risco de comprometer a pluralidade que a Constituição garante”.
O que está em jogo, portanto, não é a fé em si, mas o uso político da fé. Quando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), pautou a urgência do projeto logo após participar de um culto dentro da Casa Legislativa, a simbologia foi clara: a mistura entre púlpito e plenário. A fala do parlamentar, ao dizer que é importante “ter a palavra de Deus permeando a Casa”, reflete uma confusão entre o espaço da devoção e o da representação pública.
Não há problema algum em que políticos tenham fé, o problema surge quando o Estado passa a agir como se tivesse uma fé oficial. E é justamente isso que a bancada cristã tende a reforçar. Seus proponentes já declararam que a união das frentes evangélica e católica visa defender “pautas de costumes”, frequentemente associadas a restrições de direitos da comunidade LGBTQIAPN+, reprodutivos e de liberdade individual.
Em vez de representar o povo cristão em sua diversidade, católicos, protestantes, pentecostais, neopentecostais, espíritas e outros, a proposta corre o risco de criar um bloco político unificado em torno de uma agenda moral conservadora, reforçando divisões e hostilidades.
O Brasil não precisa de uma bancada cristã. Precisa de parlamentares comprometidos com a ética pública, com o combate à desigualdade e com o respeito à diversidade, valores que, aliás, estão presentes em todas as religiões. A fé, quando autêntica, não busca poder, mas serviço.
Misturar fé e poder é perigoso. Em nome da “defesa dos valores cristãos”, o que se corre o risco de defender, na verdade, é a concentração de influência política em um grupo que já domina o discurso público. A Constituição de 1988 garantiu a todos o direito à crença, e igualmente, o direito de não ter nenhuma. Preservar essa laicidade não é um ataque à fé; é a melhor forma de protegê-la de ser usada como instrumento de poder.
Opinião
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Sobre o autor:
Leandro Araújo é graduado em Marketing, licenciado em História, pós-graduado em Sociologia e estudante de Jornalismo.
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