A tentativa recente da extrema-direita brasileira de enquadrar facções criminosas como organizações terroristas não nasce de uma genuína preocupação com a segurança pública. Trata-se de uma operação ideológica que reencena o velho teatro do entreguismo, agora com figurinos contemporâneos. A narrativa de “combate ao terror” serve menos para proteger o país e mais para justificar a rendição simbólica e estratégica do Brasil a interesses estrangeiros, especialmente os dos Estados Unidos.
O entreguismo é uma das expressões mais persistentes da nossa cultura política. É a ideologia da dependência voluntária, a crença de que o destino nacional deve ser guiado por forças externas supostamente mais civilizadas, racionais e eficientes. Desde o período colonial, esse traço se manifesta em elites que internalizam o olhar do colonizador, reproduzindo o mito da inferioridade nativa e a necessidade de tutela estrangeira. A extrema-direita atual apenas atualiza esse vício histórico com novas palavras de ordem: “Deus, pátria, família”, mas com o selo “Made in USA”.
Ao tentar rotular o crime organizado como “terrorismo”, esses setores pretendem importar não apenas o vocabulário da política americana, mas também sua lógica de guerra. A “guerra ao terror”, lançada pelos Estados Unidos após o 11 de setembro, foi o pretexto perfeito para legitimar invasões, golpes e vigilância em massa. Transferir essa lógica para o Brasil significaria abrir espaço jurídico e político para intervenções externas, sob a justificativa de “cooperação antiterrorista”. Na prática, seria a reedição da Doutrina Monroe em versão policial-militar.
Por trás do moralismo e da retórica patriótica, há uma profunda desconfiança de si mesmo, um ódio internalizado à própria nação. É a crença de que nada do que é brasileiro é confiável, eficiente ou digno. Essa patologia cultural, que o filósofo Nelson Werneck Sodré chamou de “mentalidade colonizada”, impede a construção de um projeto nacional autônomo. A extrema-direita contemporânea apenas canaliza esse ressentimento histórico em forma de fanatismo ideológico: glorifica a bandeira dos Estados Unidos, idolatra o exército americano e demoniza qualquer esforço de soberania nacional como “comunismo”.
O discurso do “terrorismo interno” é, portanto, uma ferramenta de manipulação simbólica. Ele cria um inimigo difuso, o “narcoterrorista”, o “inimigo interno”, o “subversivo”, para justificar o autoritarismo e alinhar o país à política de segurança de Washington. É uma estratégia que converte problemas sociais e estruturais, como a desigualdade e a falência do sistema prisional, em pretextos para militarização e vigilância. Mais grave: transforma o Estado brasileiro em agente auxiliar de uma guerra que não é sua.
Essa política de medo cumpre uma função precisa: manter o Brasil dentro da órbita de dependência geopolítica e simbólica dos Estados Unidos. Sob o disfarce de “parceria estratégica”, o país aceita o papel de subordinado, cedendo soberania em troca de um simulacro de prestígio internacional. Trata-se de uma colonização consentida — a mais perigosa de todas, porque é travestida de patriotismo.
Em última instância, a extrema-direita não busca a segurança nacional, mas a segurança da sua própria ideologia. Ao inflar o pânico e criminalizar o inimigo interno, tenta sufocar o debate público, inviabilizar alternativas políticas e reforçar a velha hierarquia que coloca o Brasil como periferia obediente do império. É uma guerra simbólica, travada nas redes, nas igrejas, nos quartéis e no imaginário popular, uma guerra que pretende redefinir o que significa ser brasileiro.
O verdadeiro combate ao “terror” deveria começar pela emancipação intelectual: romper com o medo de ser nação, com o reflexo de inferioridade que nos faz ver no estrangeiro o padrão e em nós mesmos a ameaça. Enquanto o país continuar reproduzindo o discurso do colonizador, chamando de “terrorista” aquilo que é fruto de sua própria desigualdade, continuará aprisionado no ciclo histórico da submissão.
O Brasil precisa se libertar não apenas das facções criminosas que assolam suas periferias, mas também das facções ideológicas que sequestram seu destino — aquelas que, em nome da segurança e da moral, oferecem o país de bandeja aos interesses estrangeiros. O entreguismo mudou de roupa, mas seu objetivo continua o mesmo: impedir que o Brasil seja dono de si.
Opinião
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Sobre o autor:
Leandro Araújo é graduado em Marketing, licenciado em História, pós-graduado em Sociologia e estudante de Jornalismo.
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