As injeções para perda de peso, como Wegovy e Mounjaro, ganharam notoriedade mundial após resultados expressivos em ensaios clínicos, nos quais os participantes perderam, em média, entre 15% e 20% do peso corporal. Os números superaram amplamente os alcançados por programas tradicionais baseados em dieta e atividade física.
No entanto, novos dados levantam alertas importantes sobre a sustentabilidade desses tratamentos. Atualmente, cerca de uma em cada 50 pessoas no Reino Unido utiliza esses medicamentos, sendo que aproximadamente 90% arcam com os custos de forma particular. Os valores mensais variam entre £ 120 e £ 250, o equivalente a R$ 800 a R$ 1.800.
Apesar da eficácia inicial, mais da metade dos usuários interrompe o tratamento em menos de um ano, principalmente devido ao custo elevado. O problema é o que acontece depois: segundo pesquisas recentes, a maior parte das pessoas recupera todo o peso perdido em apenas 18 meses após parar a medicação.
Esse retorno ocorre de forma significativamente mais rápida do que em programas convencionais de emagrecimento. Além do peso, outros benefícios associados ao uso das injeções também desaparecem no mesmo período, como a redução da pressão arterial, do colesterol e dos níveis de açúcar no sangue.
Os dados indicam que, para manter os resultados, o uso dos medicamentos pode precisar ser contínuo — possivelmente por toda a vida. Essa constatação levanta questionamentos sobre a relação custo-benefício e a equidade no acesso, especialmente no contexto do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS).
A obesidade é mais prevalente em áreas socialmente vulneráveis, justamente onde a população tem menor capacidade de custear tratamentos privados. Atualmente, o NHS disponibiliza os medicamentos apenas para pacientes com obesidade grave, com índice de massa corporal (IMC) acima de 40, e que apresentem pelo menos quatro doenças associadas, como hipertensão. Na prática, isso exclui grande parte das pessoas que poderiam se beneficiar do tratamento.
Embora os custos possam cair no futuro, com o vencimento de patentes e o desenvolvimento de versões orais mais baratas, especialistas alertam que esse cenário ainda pode levar anos para se concretizar.
Custo versus benefício
O Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE) aprovou o uso dos medicamentos no NHS com base em cálculos que consideravam um tratamento de dois anos e a recuperação gradual do peso após três anos da interrupção. No entanto, as novas evidências mostram que o ganho de peso ocorre muito mais rapidamente, o que altera significativamente as projeções econômicas.
Além disso, os principais benefícios clínicos — como a melhora nos indicadores cardiovasculares — também se perdem no mesmo intervalo, reforçando a possibilidade de que o tratamento precise ser prolongado para ser eficaz.
Especialistas defendem a necessidade de mais estudos em ambientes reais, fora dos ensaios clínicos controlados, para avaliar o impacto financeiro e os resultados a longo prazo.
Enquanto isso, programas tradicionais de controle de peso continuam sendo a principal alternativa para a maioria da população. Estratégias como dietas de substituição total, com sopas e shakes por períodos de oito a 12 semanas, têm apresentado resultados semelhantes aos medicamentos, com custos muito menores.
Programas coletivos, como os realizados por grupos de apoio ao emagrecimento, costumam gerar perdas de peso mais modestas, mas são considerados custo-efetivos e podem até reduzir gastos do sistema público de saúde.
Os novos medicamentos evidenciam a demanda crescente por soluções eficazes contra a obesidade. No entanto, especialistas destacam que ampliar o acesso a programas mais acessíveis pode promover maior equidade e benefícios à saúde pública, mesmo que os resultados individuais não sejam tão expressivos quanto os obtidos com medicação de longo prazo.
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