A narrativa de que o bolsonarismo representaria um movimento “antissistema” tornou-se um dos pilares do discurso político associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a seus aliados. Entretanto, análises críticas sobre a trajetória do grupo político e sobre as políticas implementadas durante seu período no poder apontam contradições profundas entre essa retórica e a prática política observada.
Para esses críticos, o bolsonarismo não apenas surgiu dentro das estruturas tradicionais da política brasileira como também atuou para preservar privilégios econômicos e fortalecer interesses consolidados do mercado e velhas oligarquias.
Um movimento que nasce dentro do sistema político
A própria trajetória política de Jair Bolsonaro é frequentemente citada como exemplo dessa contradição. Antes de chegar à Presidência da República, ele construiu uma ociosa carreira de quase três décadas no Congresso Nacional, após iniciar sua vida pública como vereador no Rio de Janeiro.
Durante esse período, participou normalmente do funcionamento do sistema político brasileiro, passando por diversos partidos e integrando as dinâmicas institucionais do Legislativo.
Mesmo após assumir o governo federal, o bolsonarismo manteve alianças parlamentares tradicionais e ampliou negociações com partidos do chamado centrão para garantir sustentação política no Congresso. Para isso, o tal político “antissistema” entregou uma grande parte do orçamento da União aos falcões do centrão através do orçamento secreto.
Para críticos, essa dinâmica demonstra que a prometida ruptura com o sistema político nunca passou de discurso eleitoreiro.
Manutenção do fisiologismo político
Outro ponto frequentemente citado por cientistas políticos é a permanência de práticas associadas ao fisiologismo e à lógica corporativa do Estado.
Apesar da retórica contra a “velha política”, o governo manteve a distribuição de cargos e a negociação de espaços de poder dentro da máquina pública como forma de garantir apoio parlamentar. O discurso antissistema do ex-presidente Bolsonaro ficou apenas na garganta, sem que o então mandatário jamais tenha proposto qualquer tipo de reforma política ou partidária.
Especialistas também apontam episódios de tensão envolvendo órgãos de investigação e fiscalização, que levantaram debates sobre tentativas de interferência política em estruturas responsáveis por investigações e controle institucional.
Redução de políticas sociais e agenda econômica pró-mercado
Enquanto mantinha estruturas tradicionais da política, o bolsonarismo também avançou em uma agenda econômica caracterizada por privatizações, redução da presença do Estado em determinados setores e defesa de reformas econômicas.
Críticos argumentam que essas medidas atingiram principalmente áreas ligadas à proteção social, incluindo políticas públicas voltadas à redução da desigualdade e à garantia de direitos trabalhistas.
Nesse contexto, analistas apontam que o movimento apresentou forte alinhamento com interesses patronais, do mercado financeiro e de setores empresariais que defendem maior liberalização econômica e afrouxamento da legislação trabalhista.
Entre lideranças associadas a essa agenda está o senador e pretenso herdeiro do espólio bolsonarista, Flávio Bolsonaro, que frequentemente manifesta apoio à continuidade de reformas econômicas, privatizações e mudanças na legislação trabalhista e previdenciária, chegando a citar o presidente argentino, Javier Milei, como exemplo a ser seguido por ele caso chegue à presidência.
Críticos afirmam que essas propostas tendem a aprofundar transformações estruturais que favorecem investidores e grandes corporações, ao mesmo tempo em que ampliam pressões sobre trabalhadores, diminuição de salários e serviços públicos.
Enfraquecimento de políticas ambientais e de saúde pública
Outro ponto recorrente nas críticas ao bolsonarismo envolve mudanças nas políticas ambientais e de saúde pública.
Dados apontam que houve redução de recursos e alterações institucionais em órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental, além de críticas sobre o enfraquecimento de políticas de proteção da Amazônia e de combate ao desmatamento.
Na área da saúde pública, decisões adotadas durante a pandemia da Covid-19 também geraram debates intensos entre especialistas, pesquisadores e autoridades médicas.
Alinhamento com interesses externos
Analistas também apontam que a política externa do governo Bolsonaro apresentou forte alinhamento com os Estados Unidos durante a gestão de Donald Trump.
Esse posicionamento representou uma mudança significativa na tradição diplomática brasileira, que historicamente buscava maior autonomia e equilíbrio nas relações internacionais sem uso de algum tipo de alinhamento automático a algum bloco ou país.
Essa aproximação foi interpretada por parte dos analistas como sinal de subordinação estratégica a interesses externos, em contraste com o discurso nacionalista frequentemente utilizado pelo movimento.
Liberalismo para os outros, Estado para si
Outra contradição frequentemente apontada por analistas diz respeito à própria trajetória política da família Bolsonaro.
Embora o discurso bolsonarista defenda redução do Estado, liberalização econômica e diminuição do gasto público, integrantes da família como o pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, construíram carreiras políticas longas e dependentes de recursos públicos.
Diversos membros da família ocuparam cargos eletivos ao longo das últimas décadas, acumulando mandatos parlamentares, patrimônios e estruturas políticas financiadas pelo Estado.
Além disso, denúncias e investigações envolvendo movimentações financeiras e suspeitas de irregularidades em gabinetes parlamentares colocaram a família no centro de debates sobre o uso de recursos públicos, peculato e possíveis práticas de enriquecimento ilícito ligadas à política.
Para estudiosos da cena política nacional, essa situação revela uma contradição evidente. Enquanto o discurso defende o chamado “Estado mínimo” para a população em geral, a trajetória política da família Bolsonaro foi construída e sustentada dentro da própria estrutura estatal.
Antissistema ou estratégia política
Diante desse conjunto de fatores, cresce a avaliação de que a narrativa antissistema associada ao bolsonarismo funcionou principalmente como instrumento de mobilização eleitoral, sem lastro concreta nas práticas do grupo político liderado até agora por Jair Bolsonaro.
A principal pergunta levantada por críticos permanece no centro do debate político brasileiro. Se o bolsonarismo se apresenta como antissistema, contra qual sistema exatamente ele se colocou.
Para muitos analistas, a ruptura prometida não ocorreu nas estruturas tradicionais do poder político e econômico. Pelo contrário, o movimento teria preservado esses mecanismos enquanto direcionava sua crítica principalmente contra políticas sociais, regulação estatal e estruturas de proteção pública.
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