O avanço dos medicamentos para obesidade tem provocado mudanças no comportamento alimentar dos brasileiros — e também gerado debates na saúde pública sobre regulação, acesso e implicações clínicas. Embora essas drogas sejam frequentemente associadas à perda de peso acelerada, seus efeitos vão além da balança e alcançam circuitos cerebrais ligados à fome, ao prazer e à tomada de decisão alimentar.
Segundo o World Obesity Federation, mais de 56% dos adultos brasileiros vivem com sobrepeso ou obesidade, cenário que impulsionou a popularização de fármacos que regulam apetite e saciedade. Estudos clínicos indicam que esses medicamentos reduzem a fome impulsiva e a ingestão calórica diária.
Regulação e limitações no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou medicamentos à base de semaglutida (como Wegovy® e Ozempic®) para o controle de peso em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidades — sempre como adjuvantes à dieta saudável e aumento da atividade física. Além disso, a agência expandiu indicações desses fármacos para benefícios cardiovasculares e prevenção de complicações renais, reforçando seu uso clínico além da perda de peso isolada.
Para proteger a segurança dos pacientes, a Anvisa também proibiu a manipulação de versões não padronizadas dessas substâncias, medidas que buscam frear o mercado ilegal e assegurar a qualidade terapêutica.
Apesar das aprovações regulatórias, esses medicamentos ainda não foram incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS). A Ministério da Saúde e sua Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) têm barrado a inclusão de fármacos como Wegovy, Ozempic e Saxenda na rede pública, argumentando que o alto custo e a necessidade de acompanhamento especializado não se mostram custo-efetivos frente ao orçamento do SUS.
O Ministério destaca que o tratamento da obesidade na saúde pública segue focado em ações de promoção da saúde, com orientação sobre alimentação adequada, incentivo à atividade física e atenção primária ampliada. Serviços de monitoramento nutricional e assistência ambulatorial têm crescido nos últimos anos como parte de uma abordagem integrada, voltada a prevenção e reabilitação.
Fome e comportamento: além dos remédios
Especialistas como Roseane Leandra da Rosa, coordenadora do curso de Nutrição da UNIASSELVI e doutora em Ciências Farmacêuticas, apontam que grande parte das escolhas alimentares ainda é guiada por estímulos emocionais e ambientais — e não pela fome fisiológica. “O medicamento reduz a sinalização da fome e do desejo, gerando sensação de controle, mas não necessariamente consciência alimentar”, diz.
Do ponto de vista da neurociência, a diminuição farmacológica da fome pode frear impulsos, mas não ressignifica a relação com a comida. “O medicamento interrompe o impulso, mas não ensina o indivíduo a escolher conscientemente”, alerta a especialista.
Riscos e educação alimentar
Além da redução do apetite impulsivo, existe o risco de substituição por um padrão de controle excessivo e punitivo se o uso medicamentoso não for acompanhado de suporte nutricional e psicológico. Isso pode levar a comportamentos de restrição, culpa alimentar e distorções na relação com o corpo e a comida.
Para Roseane, a transformação duradoura exige mais do que remédios: é preciso educação alimentar baseada em ciência, fortalecimento da consciência corporal e suporte contínuo para escolhas conscientes. “Sem isso, há o risco de dependência do medicamento para comer ‘certo’, em vez de desenvolver habilidades internas”, conclui.
Acompanhe mais notícias como essa no PMW Notícias
